Por Juarez Dias
Diretor-orientador
Na primeira fase de pesquisa do grupo, batizada de A reinvenção do teatro, examinamos e discutimos o pensamento do diretor francês Denis Guénoun e do diretor canadense Robert Lepage. Esses dois artistas e pensadores propõem como reflexão os caminhos que o teatro vem buscando trilhar a partir da modernidade e na contemporaneidade.
Denis Guénoun, ator, diretor e professor da universidade e Paris V, parte da premissa da necessidade do teatro para reexaminá-lo em vários períodos de sua história no Ocidente. Num apanhado geral dessas idéias o autor esclarece a quais necessidades o teatro não responde mais:
No período clássico grego, há a necessidade de uma prática (cênica), no sentido em que os agentes da ação dramática são tanto os que representam quanto os representados; e da necessidade de uma teoria (espectadora), ou seja, o espectador vê o teatro para conhecer algo que desconhece.
Nos séculos 17, 18 e 19, a partir das idéias de DÁubignac, Sante-Albine Diderot, a necessidade do teatro está dividida: para o ator é a necessidade de identificação com o personagem ao representar; para o espectador, necessidade de ilusão quando se assiste à peça.
No final do século 19, início do 20, Freud examina a relação do ator e do espectador com o fenômeno teatral e pontua que ambos se identificam com o personagem, idéia que vai de encontro à primeira fase do método de Stanislavski. Ator efetivo e espectadores concretos se eclipsam na irrealidade do teatro.
No século 20, quando o cinema é inventado e se insere no cotidiano das pessoas, ele se apropria, desenvolve e potencializa algumas categorias que o teatro até então buscava realizar: a criação da ilusão, a identificação do espectador tanto com o personagem quanto com o olhar da câmera, a construção narrativa dramática tradicional. A imagem, substrato da linguagem cinematográfica, tem estatuto de realidade e não de ficção. No teatro, por sua natureza, a imagem só existe como metáfora, figuração. Portanto, o cinema capturou o imaginário que o teatro tentava desenvolver. Se no teatro foi preciso o ator se separar do personagem, no cinema eles são uma poderosa unidade. O cinema, e em seguida a teledramaturgia, proporciona identificação em massa dos espectadores.
A partir da segunda metade do século 20, Guénoun informa que a necessidade do teatro não reside mais no regime da representação/ indentificação tanto do ator quanto do espectador. O que restou ao teatro foi sua teatralidade e seus elementos: ator, espaço cênico, figurinos, luz, música, texto. Daí, o teatro se torna necessário como jogo que desvenda sua teatralidade para o espectador. A lógica do jogo cênico reside em sua existência cênica e na exigência apresentativa. O espectador agora passa a identificar-se com o ator, no sentido do seu ofício de atuar e não do persona ou personagem. O espectador de teatro sumiu: em seu lugar, alguns poucos fanáticos e muitos outros migrantes. Ele propõe que o teatro deve buscar sua não-teatralidade, mas sem se esquecer do élan que deve ser tecido com o espectador. A relação com o espectador está caótica: o teatro amador se apresenta para amigos e familiares, enquanto o teatro profissional se atém a seus pares. Pensando em nossa realidade, percebemos que o teatro profissional, em algum nível, ainda depende das relações interpessoais para manter ou alavancar suas temporadas, enquanto os próprios atores e diretores não freqüentam os espetáculos de colegas. Portanto, Guénoun propõe que o teatro deve se expor a ouvir aqueles que não gozam de suas vantagens.
Robert Lepage, consagrado diretor canadense da Cia. Ex Machina, analisa o teatro a partir do final do século 20 e percebe falta de vida no teatro atual. Espetáculos marcados, engessados que apenas se reproduzem diariamente nas temporadas. Ele propõe espetáculos em processo, que se construam durante as apresentações públicas, resgatando seu caráter de jogo e por isso ativando no espectador sua curiosidade, despertando-o da letargia da vida cotidiana, incitando o ator mais à idéia de jogar em cena que atuar, propondo uma interseção efetiva de linguagens (música, dança, vídeo, ópera etc) na apresentação cênica. Para ele, não se deve duvidar da capacidade de compreensão do espectador, pois que este lida com uma multiplicidade de atividades e linguagens em seu cotidiano e por isso sua mente é mais elástica. É preciso usar a inteligência devolvida do público. Retrabalhar a comunicação com o espectador no sentido de comunhão, de compartilhamento. As pessoas ainda vão ao teatro para se sentar ao redor do fogo e ouvir histórias.
É no século XX, a partir do advento do cinema e dos meios de comunicação de massa, que o teatro parece divorciar-se de seu público, este agora interessado na potência, alcance e na magia das novas linguagens audiovisuais. Estando à margem da cultura de massa, pela sua natureza artesanal e sua necessidade de presença do ator e espectador no mesmo tempo e espaço, percebemos que o teatro encontra-se no impasse de como reencontrar seu público. Uma pergunta que tem nos envolvido durante os encontros é “qual a necessidade do teatro hoje, para quem faz e para quem assiste?”
Leituras básicas
MCCALPINE, Alison. Robert Lepage. In: DELGADO, Maria M. e HERITAGE, Paul. Diálogos no palco. Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves, 1999.
GUÉNOUN, Denis. O teatro é necessário? São Paulo: Ed. Perspectiva, 2004.
Leituras complementares
AGAMBEN, Giorgio. No mundo de Odradek: a obra de arte frente à mercadoria. In: AGAMBEN, Giorgio. Estâncias: a palavra e o fantasma na cultura ocidental. Trad. Selvino José Assmann. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.
BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. Trad. José Martins Barbosa e Hemerson Alves Baptista. São Paulo: Brasiliense, 1989.
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1987.
COELHO, Teixeira. Moderno e pós-moderno – modos & versões. São Paulo: Iluminuras, 1995.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
Diretor-orientador
Na primeira fase de pesquisa do grupo, batizada de A reinvenção do teatro, examinamos e discutimos o pensamento do diretor francês Denis Guénoun e do diretor canadense Robert Lepage. Esses dois artistas e pensadores propõem como reflexão os caminhos que o teatro vem buscando trilhar a partir da modernidade e na contemporaneidade.
Denis Guénoun, ator, diretor e professor da universidade e Paris V, parte da premissa da necessidade do teatro para reexaminá-lo em vários períodos de sua história no Ocidente. Num apanhado geral dessas idéias o autor esclarece a quais necessidades o teatro não responde mais:
No período clássico grego, há a necessidade de uma prática (cênica), no sentido em que os agentes da ação dramática são tanto os que representam quanto os representados; e da necessidade de uma teoria (espectadora), ou seja, o espectador vê o teatro para conhecer algo que desconhece.
Nos séculos 17, 18 e 19, a partir das idéias de DÁubignac, Sante-Albine Diderot, a necessidade do teatro está dividida: para o ator é a necessidade de identificação com o personagem ao representar; para o espectador, necessidade de ilusão quando se assiste à peça.
No final do século 19, início do 20, Freud examina a relação do ator e do espectador com o fenômeno teatral e pontua que ambos se identificam com o personagem, idéia que vai de encontro à primeira fase do método de Stanislavski. Ator efetivo e espectadores concretos se eclipsam na irrealidade do teatro.
No século 20, quando o cinema é inventado e se insere no cotidiano das pessoas, ele se apropria, desenvolve e potencializa algumas categorias que o teatro até então buscava realizar: a criação da ilusão, a identificação do espectador tanto com o personagem quanto com o olhar da câmera, a construção narrativa dramática tradicional. A imagem, substrato da linguagem cinematográfica, tem estatuto de realidade e não de ficção. No teatro, por sua natureza, a imagem só existe como metáfora, figuração. Portanto, o cinema capturou o imaginário que o teatro tentava desenvolver. Se no teatro foi preciso o ator se separar do personagem, no cinema eles são uma poderosa unidade. O cinema, e em seguida a teledramaturgia, proporciona identificação em massa dos espectadores.
A partir da segunda metade do século 20, Guénoun informa que a necessidade do teatro não reside mais no regime da representação/ indentificação tanto do ator quanto do espectador. O que restou ao teatro foi sua teatralidade e seus elementos: ator, espaço cênico, figurinos, luz, música, texto. Daí, o teatro se torna necessário como jogo que desvenda sua teatralidade para o espectador. A lógica do jogo cênico reside em sua existência cênica e na exigência apresentativa. O espectador agora passa a identificar-se com o ator, no sentido do seu ofício de atuar e não do persona ou personagem. O espectador de teatro sumiu: em seu lugar, alguns poucos fanáticos e muitos outros migrantes. Ele propõe que o teatro deve buscar sua não-teatralidade, mas sem se esquecer do élan que deve ser tecido com o espectador. A relação com o espectador está caótica: o teatro amador se apresenta para amigos e familiares, enquanto o teatro profissional se atém a seus pares. Pensando em nossa realidade, percebemos que o teatro profissional, em algum nível, ainda depende das relações interpessoais para manter ou alavancar suas temporadas, enquanto os próprios atores e diretores não freqüentam os espetáculos de colegas. Portanto, Guénoun propõe que o teatro deve se expor a ouvir aqueles que não gozam de suas vantagens.
Robert Lepage, consagrado diretor canadense da Cia. Ex Machina, analisa o teatro a partir do final do século 20 e percebe falta de vida no teatro atual. Espetáculos marcados, engessados que apenas se reproduzem diariamente nas temporadas. Ele propõe espetáculos em processo, que se construam durante as apresentações públicas, resgatando seu caráter de jogo e por isso ativando no espectador sua curiosidade, despertando-o da letargia da vida cotidiana, incitando o ator mais à idéia de jogar em cena que atuar, propondo uma interseção efetiva de linguagens (música, dança, vídeo, ópera etc) na apresentação cênica. Para ele, não se deve duvidar da capacidade de compreensão do espectador, pois que este lida com uma multiplicidade de atividades e linguagens em seu cotidiano e por isso sua mente é mais elástica. É preciso usar a inteligência devolvida do público. Retrabalhar a comunicação com o espectador no sentido de comunhão, de compartilhamento. As pessoas ainda vão ao teatro para se sentar ao redor do fogo e ouvir histórias.
É no século XX, a partir do advento do cinema e dos meios de comunicação de massa, que o teatro parece divorciar-se de seu público, este agora interessado na potência, alcance e na magia das novas linguagens audiovisuais. Estando à margem da cultura de massa, pela sua natureza artesanal e sua necessidade de presença do ator e espectador no mesmo tempo e espaço, percebemos que o teatro encontra-se no impasse de como reencontrar seu público. Uma pergunta que tem nos envolvido durante os encontros é “qual a necessidade do teatro hoje, para quem faz e para quem assiste?”
Leituras básicas
MCCALPINE, Alison. Robert Lepage. In: DELGADO, Maria M. e HERITAGE, Paul. Diálogos no palco. Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves, 1999.
GUÉNOUN, Denis. O teatro é necessário? São Paulo: Ed. Perspectiva, 2004.
Leituras complementares
AGAMBEN, Giorgio. No mundo de Odradek: a obra de arte frente à mercadoria. In: AGAMBEN, Giorgio. Estâncias: a palavra e o fantasma na cultura ocidental. Trad. Selvino José Assmann. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.
BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. Trad. José Martins Barbosa e Hemerson Alves Baptista. São Paulo: Brasiliense, 1989.
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1987.
COELHO, Teixeira. Moderno e pós-moderno – modos & versões. São Paulo: Iluminuras, 1995.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

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